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Saci-pererê X Halloween: 31 de outubro, choque de duas culturas

Haloween X Saci
Halloween: Saci-pererê X Jack´O Lantern, ou Cabeça de abóbora

Halloween, dia das Bruxas ou dia do Saci? Nos últimos 20 anos o dia 31 de outubro vivencia uma disputa entre e a cultura norte americana (estadunidense) e o folclore brasileiro, o epicentro desta disputa está no Vale do Paraíba, mais especificamente em São Luiz do Paraitinga.

O fato é que as tradições americanas do Halloween que chegaram até nossas crianças com o advento de filmes e séries de TV, acabaram sendo reproduzidas em escolas, com festas e bailes a fantasia, sempre utilizando o que se tornou uma marca: Halloween.

Halloween pra lá, Halloween pra cá e o folclore brasileiro rico em mitos e lendas foi ficando esquecido.

Esta “disputa cultural” culminou com a criação da SOSACI a Sociedade dos Observadores de Saci , que em 31 de outubro de 2003 soltou o “Manifesto Antropofágico Revisitado” em defesa do folclore brasileiro em especial das “travessuras do nosso Saci-pererê” ao invés do Halloween americano.

Em um trecho do manifesto contra o Halloween a entidade destaca o combate ao colonialismo americano:

“Estamos fatigados de todos os colonialismos travestidos de drama roliudiano. O cinema americano devorando corações e mentes. Demente. No país onde dá status ter casa em Maiami e comprar em sales com 20% off. Estacionar no valet parking e pedir comida delivery. Por isso fazemos eco ao brado oswaldiano, contra todos os importadores da consciência enlatada. Oswald ainda grita, resquícios do nheengatú ecoando ao longe. Nunca admitimos o nascimento de Jeca Tatu entre nós. Só que o Jeca de Lobato resiste. Ele resiste ao Pato Donald, aos Poquemons, ao Raloim (halloween), às bruxas do Bush”. 

E encerram o manifesto com uma provocação ao personagem de Halloween da lenda de Jack´O Lantern, ou Cabeça de abóbora, como foi adaptado ao português.

De acordo com a história irlandesa, que ganhou fama durante o Halloween,  Jack era um homem malandro e alcoólatra, desses que ficam bêbados com uma frequência absurda.

Halloween
O Cabeça de Abóbora

Este mito irlandês conta a história de Jack o Miserável, que convidou o diabo para tomar uma bebida e não queria pagar a conta. Jack então pediu para o que diabo se transformasse em uma moeda.

Tendo-se transformado, Jack pegou a moeda e colocou-a no bolso ao lado de uma cruz de prata, impedindo que o diabo pudesse  voltar a sua forma normal.

O Miserável disse que o libertaria sob a condição de não incomodar Jack durante um ano e que, quando morresse, o diabo não guardaria sua alma.

E o manifesto da SOSACI conclui:

“A nossa independência já foi proclamada no 7 de Setembro, em São Luís do Paraitinga. Expulsamos o imperialismo travestido de globalização hegemônica. Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada em Washington e Londres, a realidade sem complexos e sem penitenciárias do saciarcado de Pindorama.  São Luis de Paraitinga, 31 de outubro de 2003, ano da deglutição final da abóbora”

Saci-pererê X Halloween: a lenda brasileira que une culturas em todo o mundo

O Brasil possui muitas lendas populares que foram transmitidas de geração em geração, e algumas têm origens que nos levam a diferentes cantos do mundo, com o avanço das tradições americanas do Halloween, o folcore brasileiro foi ficando para trás.

Durante séculos, o Brasil foi ocupado por tribos que possuíam seus próprios mitos e contos. Com a chegada dos colonizadores, o país passou a ser habitado por outros povos e, a partir do século 16, o folclore e os mitos começaram a receber influências dos escravos africanos, colonos portugueses e de outras culturas que tiveram contato com nossos colonizadores, como os muçulmanos.

Uma das lendas mais conhecidas do Brasil e que mostra todo esse encontro de culturas é a do Saci-pererê, um ser tão presente na cultura brasileira que possui uma data de celebração para si, no dia 31 de outubro em contraponto ao Halloween.

A origem do mito: uma mistura entre as culturas

Saci pererê rodamoinho
Ilustração do pererê

A origem do mito do Saci-pererê é totalmente ligada à miscigenação do Brasil, mostrando elementos da cultura indígena, negra, e também elementos cristãos, como ter medo de cruzes e deixar um cheiro sulfuroso, que são atributos clássicos do diabo na religião cristã.

O mito do Saci-pererê começa no folclore indígena, de onde vem seu nome que deriva de Ŷaci-ŷaterê, na língua Tupi-Guarani.

A lenda do Saci provavelmente se originou entre os povos indígenas do sul do Brasil durante o período colonial, onde ele era retratado como um menino índio que morava na floresta, com sua pele bronzeada e uma cauda.

Ele era originalmente uma criatura da noite, e seu nome mostra isso pelo fato de ŷaci (jasi) significar “Lua” no velho Tupi.

No entanto, quando o mito migrou para o norte, o personagem recebeu fortes influências africanas dos escravos que foram trazidos para o Brasil, que contavam histórias do Saci para divertir e assustar as crianças.

Nesses contos, o Saci passou a ser descrito como um jovem negro com apenas uma perna, porque, de acordo com o mito, ele perdeu a outra em uma luta de capoeira.

Foi por volta desta época que o Saci começou a ser representado usando uma touca vermelha mágica e fumando um cachimbo, típico da cultura africana.

Seu nome se transformou durante o tempo, sendo conhecido também como Saci Taperê e Sá Pereira.

Algumas histórias também dizem que a origem do seu gorro foi inspirado em um chapéu que era usado pelos camponeses portugueses.

Já a ideia de aprisionar um ser sobrenatural em uma garrafa e de forçá-lo a conceder desejos em troca de sua liberdade têm grandes semelhanças com a história de Aladim e o gênio da lâmpada.

E isso pode ser mais do que apenas uma coincidência, uma vez que muitos escravos eram muçulmanos e, portanto, eram familiarizados com os contos árabes.

Saci-pererê: o culpado de tudo

O Saci-pererê é conhecido por adorar pregar peças nas pessoas, como trançar os pelos dos animais, esconder brinquedos de crianças, deixar os animais soltos e provocar os cachorros. Além disso, quando ele está na cozinha, ele derrama o sal, azeda o leite e queima o feijão. Em outras palavras, qualquer coisa que dê errado dentro e fora da casa pode ser culpado pelo Saci-pererê.

Para o ajudar nessas brincadeiras, o Saci possui certos poderes mágicos. Ele ganha suas habilidades mágicas de seu gorro vermelho, que permite que ele desapareça e reapareça sempre que ele quiser e, embora ele tenha apenas uma perna ele ainda é muito ágil, pois ele pode criar tornados para se mover, além de selar cavalos muito bem.

Mas, de acordo com o mito, o Saci não faz apenas esses truques. Ele é um importante conhecedor de ervas, chás e da fabricação de medicamentos feitos de plantas. Aqueles que entram nas florestas em busca de plantas medicinais devem pedir sua permissão ou arriscar-se a se tornar uma vítima de seu truques.

Como se livrar de seus truques

Uma das maneiras de escapar de um Saci é atravessar por água corrente, geralmente por um rio. Ele não se atreverá a atravessar porque perderá todo seu poder. Outra maneira de se escapar dele é soltar uma corda cheia de nós no caminho, porque então ele será obrigado a parar para desfazê-los. Algumas pessoas também tentam acalmá-lo deixando cachaça ou tabaco para o seu cachimbo.

Saci-pererê rodemoinho
Sacis podem ser capturados com peneiras

Além de fugir de seus truques, a lenda conta que também é possível capturar um Saci. Segundo o mito, cada tornado da floresta é causado pela dança de um Saci invisível, e para capturá-lo, é preciso jogar um rosário junto com uma peneira nesse redemoinho de vento. Com cuidado, a pessoa deverá colocar o Saci capturado dentro de uma garrafa de vidro escuro, que deve ser fechada com uma rolha marcada com uma cruz.

Dependendo do tratamento que o Saci recebe de seu mestre, quando ele conseguir escapar ele poderá se tornar um guardião e amigo confiável ou um inimigo terrível. Também de acordo com a lenda, quem capturar sua touca vermelha tem direito a receber um desejo do Saci, mas o cheiro dessa touca é tão ruim que a pessoa pode nunca se livrar dele.

Essas histórias sobre o Saci e outros seres como o Curupira ainda são muito fortes em diversas regiões do Brasil, e ao redor das fogueiras, os idosos compartilham com os jovens as suas experiências com esse ser.

Ao longo dos anos, o mito foi perpetuado através da cultura oral, e depois sendo transmitido através da literatura, quadrinhos e televisão, como no Sítio do Picapau Amarelo, que fez com que a lenda se espalhasse por todo o Brasil, enquanto as histórias de Monteiro Lobato conquistavam as telas de televisão no início da década de 1950.

E então de que lado você está? 31 de outubro é dia do Saci-pererê ou é Halloween?

 

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